 A sua e a da criança - respondeu Sor Jorah, sombrio.
- Não. Ele não pode ter o meu filho - não choraria, Dany
decidiu. Não tremeria de medo. O Usurpador agora acordou o
dragão, disse a si mesma... e seus olhos desviaram-se para os
ovos de dragão que descansavam em seu ninho de veludo
escuro. A oscilante luz da candeia iluminava as escamas de
pedra, e grãos de pó que tremeluziam em jade, escarlate e
ouro dançavam no ar à sua volta, como cortesãos em torno de
um rei.
Teria sido a loucura que a tomara naquele momento, nascida
do medo? Ou alguma estranha sabedoria enterrada em seu
sangue? Dany não saberia dizer. Ouviu a própria voz dizendo:
- Sor Jorah, acenda o braseiro.
- Khaleesi? - o cavaleiro olhou-a de um modo estranho. - Está
tão quente. Tem certeza? Nunca tivera tanta certeza de nada.
- Sim, eu... eu estou arrepiada. Acenda o braseiro. Ele fez uma
reverência.
- Às suas ordens.
Quando os carvões se incendiaram, Dany mandou Sor Jorah
embora. Tinha de estar só para fazer o que tinha de fazer.
Isto é uma loucura, disse a si mesma enquanto tirava do
veludo o ovo negro e escarlate. Só vai partir-se e arder, e é tão
belo, Sor Jorah me chamará de tonta se estragá-lo, no
entanto, no entanto...
Embalando o ovo com as mãos, levou-o para o fogo e o
empurrou para o interior dos carvões ardentes. As escamas
negras pareceram brilhar quando beberam o calor. Chamas
lamberam a pedra com pequenas línguas vermelhas. Dany
depositou os outros dois ovos ao lado do negro, no fogo.
Quando deu um passo para longe do braseiro, a respiração
tremeu-lhe na garganta.
Observou até que os carvões se transformaram em cinzas.
Fagulhas flutuavam para cima e seguiam pelo orifício de
saída da fumaça. Ondas de calor estremeciam em torno dos
ovos de dragão. E foi tudo.
Seu irmão Rhaegarfoi o último dragão, dissera Sor Jorah.
Dany fitou tristemente os ovos. Que esperava? Um milhar de
milhares de anos antes tinham estado vivos, mas agora eram
apenas rochas bonitas. Não podiam fazer um dragão. Um
dragão era ar e fogo. Carne viva, não pedra morta.
Quando Khal Drogo regressou, o braseiro estava frio de novo.
Cohollo levava um cavalo de carga à sua frente com a carcaça
de um grande leão branco presa ao dorso. No céu, as estrelas
começavam a surgir. O khal soltou uma gargalhada ao saltar
do cavalo e mostrou-lhe as cicatrizes na perna, onde o
hrakkar o arranhara através dos calções.
- Farei para você um manto de sua pele, lua da minha vida -
ele jurou.
Quando Dany lhe contou o que acontecera no mercado, todos
os risos pararam, e Khal Drogo ficou muito silencioso.
- Esse envenenador foi o primeiro - preveniu-o Sor Jorah
Mormont -, mas não será o último. Os homens arriscarão
muito por um título.
Drogo ficou em silêncio durante algum tempo. Por fim, disse:
- Esse vendedor de venenos fugiu da lua da minha vida.
Melhor seria que corresse atrás dela. E é o que vai fazer.
Jhogo, Jorah, o ândalo, a ambos eu digo, escolham qualquer
cavalo que desejarem das minhas manadas, e ele é seu.
Qualquer cavalo, exceto o meu vermelho e a prata que foi
presente de casamento à lua da minha vida. Dou-lhes este
presente pelo que fizeram. E a Rhaego, filho de Drogo, o
garanhão que montará o mundo, também a ele prometo um
presente. A ele darei essa cadeira de ferro onde se sentou o pai
de sua mãe. Darei a ele Sete Reinos. Eu, Drogo, khal, farei
isto - sua voz ergueu-se e ele levantou o punho para o céu. -
Levarei meu khalasar para o oeste, até onde o mundo
termina, e montarei os cavalos de madeira através da negra
água salgada como nenhum khal fez antes. Matarei os
homens das roupas de ferro e derrubarei suas casas de pedra.
Violarei suas mulheres, tomarei seus filhos como escravos e
trarei seus deuses quebrados para Vaes Dothrak, para que se
verguem sob a Mãe das Montanhas. É isto que prometo, eu,
Drogo, filho de Bharbo. É isto que juro perante a Mãe das
Montanhas, com as estrelas por testemunhas.
O khalasar partiu de Vaes Dothrak dois dias mais tarde,
dirigindo-se para o sul e para o oeste pelas planícies. Khal
Drogo os liderou no seu grande garanhão vermelho, com
Daenerys a seu lado na sua prata. O vendedor de vinhos
corria atrás deles, nu, a pé, acorrentado pela garganta e pelos
pulsos. As correntes estavam presas à sela da prata de Dany.
Enquanto ela cavalgava, ele corria a seu lado, de pés nus e
aos tropeções. Nenhum mal lhe aconteceria... enquanto conse-
guisse acompanhá-la.

Catelyn

Estava longe demais para distinguir claramente as bandeiras,
mas mesmo através do nevoeiro podia ver que eram brancas
com uma mancha escura no centro, que só podia ser o lobo
gigante dos Stark, cinzento sobre seu fundo de gelo. Quando
viu aquilo com os próprios olhos, Catelyn puxou as rédeas do
cavalo e inclinou a cabeça num agradecimento. Os deuses
eram bons. Não chegara tarde demais.
- Esperam a nossa vinda, senhora - disse Sor Wylis Manderly
-, como o senhor meu pai jurou que fariam.
- Não os deixemos à espera por mais tempo, sor - Sor Brynden
Tully esporeou o cavalo e dirigiu-se a tr